terça-feira, 16 de agosto de 2016

Erro médico provoca sequelas e disparada de processos na Justiça


Erro médico provoca sequelas e disparada de processos na Justiça

Marlene Bergamo/Folhapress
Diogo, 24, que perdeu a mãe após erro médico, e sua filha
Diogo, 24, que perdeu a mãe após erro médico, e sua filha



O que a aposentada Marina Souza, 86, buscava era uma cirurgia plástica corriqueira para a retirada do excesso de pele nas pálpebras. Mas ela acabou indo para casa com sequelas irreparáveis nas mucosas do nariz e nos lábios –hoje tem que respirar apenas de boca aberta.
"Era para eu sair [do hospital] no mesmo dia e tive que ficar mais de uma semana [internada]", conta Marina, que teve seu rosto queimado por um aparelho na operação.
A aposentada foi vítima de um problema que desperta cada vez mais queixas na Justiça e no setor de saúde.
Nos últimos anos, houve crescimento de processos e reclamações por erros médicos identificado pela Folha em pelo menos três esferas diferentes –no Tribunal de Justiça de São Paulo, no Superior Tribunal de Justiça e no Conselho Regional de Medicina.
Os casos que vão ao STJ após recurso em instância inferior subiram 82% de 2010 a 2015, ano com 474 ações. Em 2016, já são 351 até julho.
No TJ paulista, os processos por erros médicos subiram 19% no ano passado em relação a 2014 –e já beiram quatro por dia. No Cremesp, que analisa eventuais sanções aos médicos, a alta foi de 22%.
No caso da aposentada Marina, a Justiça determinou uma indenização de R$ 20 mil.
Os erros médicos são atribuídos por especialistas a uma série de fatores –que vão da formação deficiente em faculdades à falta de fiscalização em procedimentos feitos por clínicas e hospitais.
Especialistas atribuem esse aumento de reclamações e processos à maior exposição do assunto, que incentiva vítimas a buscarem reparações.

GRAVIDEZ E MORTE
Uma ação que chegou ao STJ, em Brasília, foi resultado da morte de Aparecida Kuriyama, em 1998, aos 34 anos, após hemorragia interna.
Ela teve gravidez ectópica –quando um óvulo fecundado se implanta fora do útero, sem chances de sobrevivência do embrião. Correndo risco de vida, teve que fazer tratamento com medicamento usado para quimioterapia. A dose aplicada, no entanto, foi excessiva. Aparecida deixou seu marido e um filho, Diogo Kuriyama, com 6 anos na época.
Depois do reconhecimento do erro médico, houve acordo inicial com a maternidade para que fosse paga uma indenização de R$ 20 mil ao pai e igual valor ao garoto, que só receberia a quantia ao completar 18 anos.
O processo foi reaberto após a Promotoria considerar o valor insuficiente. Em fase final no STJ, Diogo reivindica agora mais de 50 vezes a indenização original.
"Amor de mãe dinheiro nenhum paga", afirma ele, que completa 24 anos neste domingo (14) e trabalha como cabeleireiro em São Paulo.
"Se ela estivesse viva, eu estaria me formando na faculdade. Queria estudar medicina. Não tive minha mãe para me criar", diz.
Neste Dia dos Pais, a filha dele, Isabella, também aniversaria –celebra dois anos. "É uma data bem gostosa para mim. Mas seria mais gostosa se a avó estivesse aqui para comemorar com a neta."
NEGLIGÊNCIA
"Antigamente tinha-se a ideia de que qualquer coisa que ocorresse seria uma fatalidade. Em muitos casos, houve imperícia ou negligência", afirma Alexandre Jubran, advogado de um escritório especializado em saúde.
Ademar Gomes, presidente da Associação dos Advogados Criminalistas de SP, diz haver "maior procura da população por seus direitos". "[O erro] não deveria ser considerado culposo [sem intenção], mas como dolo eventual [quando se assume um risco], por causa da imprudência."
SEGURANÇA
Para minimizar os erros que deixam sequelas em pacientes, profissionais da área defendem medidas que incluem ações básicas de higiene, avaliação de estudantes de medicina e certificações e protocolos comparados aos de pilotos de avião.
Segundo Aline Yuri Chibana, presidente da Fundação para Segurança do Paciente, erros médicos costumam ser resultado de várias falhas no atendimento médico. "A acreditação das instituições e a adoção de checklists melhoram os processos nos hospitais. É preciso trabalhar mais a cultura de segurança e sair da cultura punitiva."
Como exemplo, ela cita um simples lavar de mãos, não apenas da equipe médica, mas mesmo de visitantes, ou a identificação de pacientes, para evitar, por exemplo, a troca de medicamentos.
"São medidas extremamente simples, mas de grande impacto", diz Chibana, que é diretora de qualidade do hospital A. C. Camargo.
A Fehoesp (Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo) tem trabalhado para capacitar os estabelecimentos a fim de que obtenham um selo de qualidade da ONA (Organização Nacional de Acreditação). Para conseguir a certificação, os estabelecimentos têm que adotar uma série de protocolos de gestão de qualidade.
Para Yussif Ali Mere Júnior, presidente da Fehoesp, trata-se de processo semelhante ao adotado por pilotos de avião. "Antes de fazer a decolagem o piloto checa e recheca tudo. Se tiver algo falhando, você sabe qual é o risco."
Em 2013, a Anvisa publicou uma resolução determinando que todos os serviços de saúde no país estabelecessem núcleos de segurança do paciente, com planos que determinassem ações de gestão de risco. Foram estipulados quatro meses para que todos os 8.500 estabelecimentos cadastrados se adequassem. Até julho, apenas 1.277 haviam criado seus núcleos.
Tanto Chibana quanto Ali Mere concordam que uma avaliação dos recém-formados em medicina ajudaria a evitar erros. "Mas deve ir muito além do que se faz na OAB. Não pode ser um exame só escrito, tem que ser prático", diz Ali Mere. Proposta do tipo chegou a ser feita pelo Ministério da Educação, mas está sendo revista na gestão Temer (PMDB).
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Como evitar erros em hospitais

Segundo resolução da Anvisa
> Identificar, monitorar e comunicar riscos de forma sistmática
> Implementar protocolos do Ministério da Saúde
> Promover a segurança em cirurgias e prescrições de medicamentos
> Identificar o paciente
> Higienizar as mãos
> Tomar medidas para prevenir quedas de pacientes
> Estimular a participação do paciente e dos familiares no atendimento
Fontes: STJ, TJSP, Cremesp e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Nomeação em perícia judicial odontológica

Procedimento Comum / Planos de Saúde 
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 28/01/2015 - 18ª Vara Cível

www.tjsp.jus.br

Responsabilidade civil do cirurgião-dentista:a importância do assistente técnico x perito judicial odontológico



Responsabilidade civil do cirurgião-dentista:a importância do assistente técnico

Ricardo Henrique Alves da Silva*, Jamilly de Oliveira Musse**, Rodolfo Francisco H. Melani***,
Rogério Nogueira Oliveira***

Resumo
Introdução: a responsabilidade do cirurgião-dentista pode ser entendida como obrigações de
ordem penal, civil, ética e administrativa, às quais está sujeito no exercício de sua atividade.
Assim, se comprovado um resultado lesivo ao paciente – por imprudência, imperícia ou negligência
–, o cirurgião-dentista estará sujeito às penalidades previstas no Código Civil, sendo
obrigado a satisfazer o dano e indenizar segundo a consequência provocada. Em processos
cíveis, as partes poderão contratar um assistente técnico para fornecer, aos respectivos advogados,
conhecimentos técnicos e científicos inerentes ao tema. Objetivo: informar sobre a
importância da atuação de assistentes técnicos em processos cíveis, propiciando às partes uma
maior compreensão dos aspectos técnicos, éticos e legais. Conclusão: há a necessidade de um
maior conhecimento, por parte dos profissionais em Odontologia, sobre os aspectos éticos e
legais que norteiam a profissão.

Palavras-chave: Responsabilidade civil. Odontologia. Perícia.

* Professor doutor – Odontologia Legal – Departamento de Clínica Infantil, Odontologia Preventiva e Social – FORP/USP.
** Doutorado em Odontologia Social pela FO/USP. Docente do Curso de Odontologia da UEFS/Bahia. Odontolegista do Departamento de Polícia
Técnica de Feira de Santana, Bahia.
*** Professor doutor do Departamento de Odontologia Social da FOUSP.



INTRODUÇÃO


Ao desempenhar atividade laborativa, além da
responsabilidade comum a todas as pessoas como
cidadãos, compete ao trabalhador, também, uma
responsabilidade específica: a de responder pelos
atos cometidos no exercício da profissão.
Particularmente quando são consideradas as
profissões da Saúde, essa obrigação de responder
pelos atos praticados no desempenho da profissão
(responsabilidade profissional) comporta um quádruplo
enquadramento: penal, civil, administrativo
e ético25.
A difusão dos métodos de cura e a consciência
do dano sofrido têm conduzido a um aumento
significativo do número de pacientes que buscam
a reparação por prejuízos em decorrência da culpa
profissional. Entretanto, observa-se que os juristas
nacionais pouco se dedicaram ao estudo da responsabilidade
civil dos cirurgiões-dentistas19. Tal
enquadramento conduz à reflexão de que, em se
tratando de vida humana, não há lugar para culpas
pequenas17.
E, na atual realidade de mercado – altamente
competitivo e no qual busca-se atingir, muitas vezes,
apenas o lucro –, observa-se um aumento no
número de processos contra profissionais da área
da Saúde. Sendo a Odontologia uma das profissões
intrinsecamente ligadas à Saúde Pública, a violação das suas exigências não poderia deixar de
caracterizar-se como crime27.
O chamado mercado da saúde, antes visto
como “intocável”, hoje recebe diversas denúncias,
tanto por parte dos usuários quanto de demais
profissionais. O Procon de São Paulo realizou,
em 2004, um total de 345.447 atendimentos, dos
quais 84% tiveram orientação ou foram solucionados
pelas empresas sem abertura de queixas,
11% não eram de competência do órgão e os 5%
restantes foram considerados reclamações fundamentadas,
ou seja, que se converteram em processo
administrativo no Procon9.
Em 2005, o Procon-SP recebeu um total de
359.811 reclamações, sendo que as da área da
Saúde responderam por 4,70% desse montante,
ou seja, mais de 12.000 reclamações23.
Como exemplo, em levantamento realizado
no município de Bauru/SP, no primeiro semestre
de 2006, foram 6.447 denúncias/reclamações no
setor de prestação de serviços, no qual se inclui
o setor da Saúde, dentro de um total de 11.956
protocolos do Procon-Bauru5.
O assunto é quase sempre tratado como mero
apêndice em trabalhos acerca da responsabilidade
civil do médico, esquecendo-se, contudo, de que
diversas peculiaridades da atividade, cada vez mais
enriquecida com os avanços tecnológicos e científicos,
irão influenciar de maneira única e decisiva
na resposta jurídica de cada caso concreto14.
Por definição, o termo responsabilidade origina-
se na palavra latina re-spodere e tem como
significado a recomposição, a obrigação do agente
causador do dano em repará-lo30. Hoje, a responsabilidade
jurídica divide-se, de uma forma genérica,
em responsabilidade civil e penal, sendo que
em ambas há a possibilidade, estabelecida em Lei,
da utilização dos serviços de um assistente técnico.
A responsabilidade civil pode ser definida como
o dever de reparar o dano causado a outrem, pela
prática de um ato ilícito ou inobservância do complexo
de normas que norteiam a vida cotidiana11.
Sua causa geradora é o interesse em restabelecer o
equilíbrio jurídico alterado ou desfeito pela lesão,
por meio da indenização pecuniária25.
Os atos humanos devem sempre ser ou estar
de acordo com os preceitos legais. Dessa maneira,
os atos que contrariem um dispositivo legal são
ilegais, por apresentarem-se contrários ao Direito.
E, segundo a Lei Civil Brasileira, é ato lícito aquele
que se fundamenta no Direito e ato ilícito o que
contraria a lei, ou seja, afronta o Direito, fugindo
das determinações legais, sendo, consequentemente,
um crime, que pode ser civil ou criminal, de
acordo com a lei que venha a ser ofendida pelo
comportamento em questão7.
Fazem parte dos trâmites do processo civil: o
autor (aquele que formula pedido em juízo), o réu
(aquele contra quem tal pedido se dirige), os advogados,
o juiz e os assistentes técnicos20.
O assistente técnico, foco central deste artigo,
é tido como auxiliar da parte, tendo por obrigação
concordar, criticar ou solicitar complementações
ao laudo do perito oficial, por meio de seu parecer,
cabendo ao juiz, pelo princípio do livre convencimento,
analisar seus argumentos18. Vale ressaltar,
também, que a atuação do assistente técnico
é parcial, ou seja, ele defende uma das partes da
lide judicial, diferentemente do perito, que deve
ser imparcial.
Assim, esta revisão de literatura tem como
objetivo informar acadêmicos, profissionais de
Odontologia e advogados sobre a responsabilidade
civil do cirurgião-dentista e ressaltar a importância
da presença de assistentes técnicos em
processos cíveis na área odontológica.

Revisão de literatura

A responsabilidade civil é um tema cada vez
mais presente no Direito brasileiro. Isso ocorre em
função de relevantes avanços quanto à legislação,
com grande modificação no reconhecimento do
povo como cidadão, principalmente com a Constituição
da República Federativa do Brasil, de 1988,
que instituiu, além de outras garantias, o direito à
saúde. Assim, confirmou os cidadãos como entes
participativos no meio social, fazendo com que
todos buscassem com mais fervor os seus direitos.
Consequentemente, houve um grande aumento
do número de ações indenizatórias a fim de reparar
os danos causados por profissionais da Saúde30.
Além disso, com o advento da Lei nº. 8078,
de 11 de setembro de 1990, denominada Código
de Defesa do Consumidor, o cirurgião-dentista
passou a ser considerado fornecedor de serviços.
Isso acirrou os debates sobre a questão, bem como
elevou o número de casos levados ao Poder Judiciário,
no sentido de ressarcimento de danos por
erro profissional8.
O Código de Defesa do Consumidor define
serviço como “qualquer atividade fornecida no
mercado de consumo mediante remuneração”, estando
a atuação do cirurgião-dentista sujeita a tal
regulamentação também29.
Tais danos são obrigações derivadas de atos
ilícitos por meio de ações, culposas ou dolosas,
praticadas como infração a uma conduta a ser seguida12.
Nesse sentido, de acordo com o artigo 927
do Código Civil Brasileiro (2002) “aquele que por
ato ilícito causar dano a outrem fica obrigado a
repará-lo”3.
Portanto, todo lesado tem o direito de buscar
a reparação do dano que lhe foi causado, o que
torna ainda mais delicada a relação profissionalpaciente:
hoje, a maioria dos procedimentos realizados
pelos cirurgiões-dentistas ficam sujeitos à
análise de qualidade, podendo esses profissionais
responder civilmente pelos seus atos22.
Da responsabilidade objetiva e subjetiva
Tendo em vista os fundamentos da responsabilidade
civil, essa se classifica em responsabilidade
objetiva e responsabilidade subjetiva30.
A responsabilidade subjetiva funda-se no conceito
de que, para haver a responsabilização do
agente causador do dano, imprescindível se faz a
comprovação da culpa, ou seja, o agente deve agir
com vontade própria e consciência16.
Na culpa, há sempre a violação de um dever
preexistente. Se esse dever se funda em um contrato,
a culpa é contratual; se no princípio geral do
Direito, que manda respeitar a pessoa e os bens
alheios, a culpa é extracontratual ou aquiliana21.
A lei impõe, entretanto, a certas pessoas e em
determinadas situações, a reparação de um dano
cometido sem culpa. Quando isso acontece, diz-se
que a responsabilidade é legal ou objetiva, porque
prescinde da culpa e se satisfaz apenas com o dano
e o nexo de causalidade19.
Se pensarmos no enquadramento da responsabilidade
em Odontologia, essa apresentar-se-á
como subjetiva, conforme o Código de Defesa do
Consumidor (1990) que legisla, em seu artigo 14:
“O fornecedor de serviços responde, independentemente
da existência de culpa, para reparação
dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre
sua fruição ou riscos. §4º. A responsabilidade dos
profissionais liberais será apurada mediante a verificação
da culpa”.
Processo de responsabilidade civil
Processo consiste no instrumento ou meio
utilizado para solucionar conflitos de interesse
regulados pelo direito existente entre pessoas diferentes,
denominadas partes (autor e réu)11. Normalmente,
o processo de responsabilidade civil
demanda tempo considerável, podendo variar de
alguns meses a anos, tendo em vista a necessidade,
na maioria dos casos, de realização de perícia especializada15.
O Código de Processo Civil (Lei n° 5869, de
11 de janeiro de 1973) descreve no Título 7, capítulo
III, artigos 276 a 278, todas as etapas pertinentes
a um processo da área cível4, conforme resumimos
nos esquemas ilustrados nas figuras 1 e 2.
Na petição inicial, o autor, representado pelo
seu advogado, fará a exposição dos problemas e
formulará os quesitos4. Em geral, o autor precisa
provar o nexo causal entre o ato praticado pela
parte adversa e o dano experimentado16. De posse
processual civil empresta ao profissional especializado
em determinada área, indicado e contratado
por uma das partes, no sentido de prestar ajuda
na elaboração da prova pericial. Em tese, eles possuem
os mesmos privilégios dos peritos – como
ouvir testemunhas, solicitar documentos e obter
as devidas informações –, tendo diferenciações somente
relativas às questões de prazo, pois o do assistente
técnico é de apenas 10 dias após a entrega
do laudo pelo perito13.
Preferencialmente, o especialista deve ser um
profissional que milite na área de Odontologia
Legal, haja vista todo o trâmite processual envolvido,
bem como a necessidade de conhecimento
dos aspectos jurídicos envolvidos em uma perícia,
além do auxílio ao advogado na composição de
documentos e na estruturação da defesa da parte.
O Código de Processo Civil (1973), no Título
I, capítulo V, Seção II, artigo 50, que trata da assistência
técnica, confirma a possibilidade de atuação
de terceiros no processo, como auxiliares de uma
das partes, desde que esses tenham interesse jurídico
em que a sentença seja favorável a uma das
mesmas4.



Discussão


O conhecimento dos direitos e deveres, bem
como o respeito ao Código de Ética, é condição
fundamental para o correto exercício de qualquer
profissão, inclusive as relacionadas à Saúde e à coletividade,
como a Medicina e a Odontologia1.
desse documento, o juiz citará e intimará o réu,
designando a audiência de conciliação, a ser realizada
no prazo de trinta dias. Não obtida a conciliação,
resposta escrita ou oral acompanhada de
documentos ou quesitos será apresentada pelo advogado
do réu, defendendo-o da acusação que lhe
está sendo imputada4.
Havendo necessidade de perícia, o juiz indicará
um perito de sua confiança para realizá-la, o que
resultará na elaboração de um laudo4. É importante
lembrar que o juiz poderá solicitar a perícia
mesmo sem o pedido das partes litigantes. Além
do perito nomeado pelo juiz, as partes litigantes,
se assim o desejarem, poderão nomear seus assistentes
técnicos, que acompanharão a realização da
perícia e apresentarão seus respectivos laudos técnicos,
acrescentando-os ao processo6.
Após a realização da instrução processual, ou
seja, depois de examinadas todas as provas, o juiz
proferirá sentença, conforme seu convencimento,
não precisando seguir as mesmas conclusões da
perícia técnica4. Dessa sentença, a parte prejudicada
poderá apresentar recurso de apelação ao tribunal
competente.

Assistência técnica

No sistema do Código de Processo Civil
(1973), as partes são livres para indicar seus assistentes
técnicos, sempre em número de um e cuja
aceitação é espontânea15.
Assim, assistente técnico é o rótulo que a Lei
FIGURA 1 - Trâmite processual civil (fase inicial). FIGURA 2 - Trâmite processual civil – perícia odontológica.
1ª AUDIÊNCIA - AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO
PERITO JUDICIAL
JUIZ
petição inicial intimação
contestação contestação
PACIENTE DENTISTA
JUIZ
solicitação
perícia intimação
intimação agendamento
aceita/recusa
PACIENTE PERITO
DENTISTA

foge ao controle técnico e científico que rege a
Odontologia, assim como em qualquer outra área
da Saúde30.
Dessa forma, o cirurgião-dentista deve realizar
todo trabalho baseado numa técnica coerente
e de forma diligente, sem esquecer que, em
um processo, a peça fundamental é o prontuário
odontológico28.
Havendo o dano e estando o cirurgião-dentista
sujeito a um processo na área cível, é hora de localizar
a documentação do paciente que move a
ação e contratar um bom advogado e um assistente
técnico experiente na área da Odontologia Legal.
O cirurgião-dentista e o paciente podem estar
representados, legalmente, por qualquer cirurgiãodentista,
uma vez que a Lei n°. 5081 (1966), que
regulamenta o exercício da Odontologia, estabelece
em seu artigo 6º sua competência para proceder
à perícia odontolegal em foro civil, criminal,
trabalhista e em sede administrativa.
Quanto à documentação odontológica, as provas
a serem apresentadas pelo profissional são
pré-constituídas, ou seja, são produzidas oportunamente,
ou não servirão para esse fim24. O
profissional deve elaborar, ao longo do tempo, o
prontuário do paciente. Do contrário, a ficha que
apresenta em juízo, forjada no ato de defesa ou
trazendo apenas anotações relativas aos custos e
pagamentos, entremeadas de poucas e esparsas informações
acerca do tratamento, será irrelevante9.
Assim, o prontuário odontológico deverá conter
todas as ocorrências, suas consequências verificadas
ao longo do atendimento, bem como todas
as providências tomadas, já que a falta ou falhas
nessa documentação comprometerão a sua validade
sob o aspecto legal.
Um prontuário composto de registro da anamnese,
ficha clínica, plano de tratamento, receitas,
atestados, modelos, radiografias e orientações pósoperatórias
e/ou sobre higienização é passível de
ser realizado por todo e qualquer profissional26.
Desta forma, todas as orientações referentes à
documentação odontológica, bem como um relato
Ao desempenhar suas atividades de rotina,
além da responsabilidade comum a todas as pessoas
como cidadãos, compete ao trabalhador uma
responsabilidade específica, a de responder por
atos cometidos no exercício da profissão24.
No ato em que o cirurgião-dentista aceita alguém
como paciente, estabelece-se entre as duas
partes um contrato de prestação de serviços, que
deve ser entendido como obrigação de resultado
ou obrigação de meio. A de resultado é aquela em
que o credor tem o direito de exigir do devedor a
produção de um resultado, enquanto, na de meio,
o devedor se obriga tão somente a usar de prudência
e diligência normais na prestação de certos
serviços para atingir um resultado, sem, contudo,
se vincular a obtê-lo25.
Observa-se que a Odontologia apresenta uma
tendência atual de ser enquadrada como obrigação
de resultado, em virtude de muitos profissionais
prometerem resultados “milagrosos”, assim
como da falta de divulgação de insucessos na
prática odontológica e do uso de artifícios inadequados
de propaganda (antes e depois), levando o
paciente a entender que todo procedimento em
Odontologia terá sucesso e independe de outros
fatores (tais como resposta biológica e cooperação
do paciente).
Distante é a época em que a relação profissional-
paciente era completamente baseada na confiança,
sem tantos questionamentos e exigências
por parte do paciente22. Nos dias de hoje, não resta
a menor dúvida sobre a consciência e capacidade
cognitiva dos pacientes quanto à relação de contrato
que se estabelece com o profissional2, além
de uma maior exigência quanto às informações
sobre os serviços prestados.
Muitas vezes, incentivados pelo seu círculo
social ou pela própria mídia, uma parte significativa
desses pacientes/clientes busca algum ressarcimento
monetário nos casos de erros advindos
por culpa do cirurgião-dentista, procurando na
máquina judiciária todo amparo para essa prestação.
Porém, a atividade judiciária, muitas vezes,
fiel aos fatos ocorridos, serão abordadas pelo assistente
técnico, podendo consultar especialistas na
área do processo, a fim de procurar um melhor posicionamento
na defesa de seu cliente. No entanto,
a necessidade do conhecimento da Legislação
brasileira, bem como da Deontologia e Diceologia
específicas, somado à experiência prática da atividade
aponta, como postura prudente, para a indicação
de um profissional da Odontologia Legal.
Ainda em relação à assistência técnica, há uma
série de sugestões, direcionadas especificamente
aos advogados, no sentido de pautar sua atuação,
em relação ao assistente técnico, dentro da nova
sistemática que rege o processo civil no que tange
à prova pericial18:
• Procurar contatar o assistente técnico antes
mesmo do início da ação, pois esse poderá tornarse
um consultor técnico em todas as fases do processo,
haja vista o desconhecimento do profissional
da área jurídica quanto aos aspectos técnicos
da Odontologia.
• Antecipar-se à nomeação do perito oficial,
permitindo ao assistente técnico tomar conhecimento
do processo, realizar um levantamento dos
dados e propor sugestões de quesitos.
• Avisar ao assistente técnico da nomeação do
perito oficial, fornecendo seu nome, endereço e
telefone, para que ele possa contatá-lo com facilidade,
a fim de fornecer-lhe as informações necessárias
e fazer as solicitações que eventualmente
ocorram.
• Inteirar-se com o assistente técnico dos honorários
que usualmente são cobrados pelos peritos
oficiais naquele tipo de ação, que poderão ser
guiados pelas tabelas profissionais ou costumes
locais.
• Não manifestar-se com relação aos atos praticados
pelo perito oficial sem discutir o assunto
com o assistente técnico, pois muitas vezes envolvem
temas de caráter restrito à categoria profissional
em que se inserem esses profissionais.
• Dar ciência ao assistente técnico do depósito
dos honorários do perito oficial, a partir do qual a
perícia pode ter início a qualquer momento.
• Comunicar ao assistente técnico sobre a determinação
para início da perícia, fornecendo-lhe
o completo teor do despacho, pois muitos juízes
costumam fixar dia e hora para a realização da vistoria
que, preferencialmente, deve contar com a
presença do assistente técnico.
• Informar o assistente técnico de qualquer
publicação sobre despacho relacionado à prova
pericial, direta ou indiretamente.
• Fornecer ao assistente técnico, imediatamente,
informação sobre publicação relativa à entrega
do laudo pericial por parte do perito oficial.
• Tomar conhecimento, e passar ao assistente
técnico, o teor da manifestação do assistente técnico
da parte contrária sobre o laudo pericial entregue
pelo perito oficial.
• Discutir com o assistente técnico o conteúdo
de seu parecer sobre o laudo pericial emitido,
pois o seu trabalho deve obedecer a uma linha de
raciocínio e estratégia elaborada pelo advogado na
construção da lide.
Considerações finais
É possível concluir que o assistente técnico
pericial desempenha uma função significativa em
processos de responsabilidade profissional, pelo
fornecimento de informações técnicas, biológicas
e legais, devendo-se optar, preferencialmente, por
profissionais da área de Odontologia Legal, haja
vista que a atuação desse profissional não limita-se
ao conhecimento técnico da área processada, mas
a todo o trâmite do mesmo.
Observa-se, ainda, que as orientações de um
assistente técnico podem trazer para o cirurgiãodentista
vantagens, tais como: melhor organização
da documentação odontológica, maior conhecimento
de seus direitos e deveres e, sobretudo,
maior segurança na sua atuação profissional.


Enviado em: janeiro de 2007
Revisado e aceito: julho de 2007


SILVA, R. H. A.; MUSSE, J. O.; MELANI, R. F. H.; OLIVEIRA, R. N.
R Dental Press Ortodon Ortop Facial 71 Maringá, v. 14, n. 6, p. 65-71, nov./dez. 2009
Surgeon dentist’s civil liability: The technical assistant’s importance
Abstract
Introduction: The dentist’s liability can be understood as the criminal, civil, ethical and administrative obligation
that they have in their professional exercise. Thus, when producing a harmful result to the patient, due to imprudence,
ineptitude or recklessness, the dentists will be liable to the foreseen penalties on the Civil Code, where the
compensation will be obligatory to satisfy the damage according to the reached consequence. In these types of
processes, the involved parts will be able to contract a technical assistant to supply the respective lawyers about
biological, technician and professional knowledge. Aim: This paper aim to report about the technical assistant’s
importance, in the performance of each one of the involved parts in a civil process. Conclusion: It is necessary a
major knowledge, by dentists, about legal and ethical aspects in the professional activity.
Keywords: Civil liability. Dentistry. Peritial.
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BARBOSA, M. B. B. Seminários avançados em Odontologia
legal. Feira de Santana: Ed. da UEFS, 2002.
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Rio de Janeiro: Forense, 1997.
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9. DINHEIRO. Teles e bancos são as empresas que mais recebem
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(Mestrado)-Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade
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28. SIMONETTI, F. A. A. Responsabilidade civil do cirurgiãodentista.
Rev. Assoc. Paul. Cirur. Dent., São Paulo, v. 53, n. 6,
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dentista não-autônomo nas situações de emergência das
atividades hospitalares. Disponível em: br/doutrina/texto.asp>. Acesso em: 20 set. 2006.


Endereço para correspondência
Ricardo Henrique Alves da Silva
Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto – USP
Departamento de Clínica Infantil, Odontologia Preventiva e Social
Avenida do Café, s/n, Bairro Monte Alegre
CEP: 14.040-904 – Ribeirão Preto / SP
E-mail: ricardohenrique@usp.br
Referências

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Nomeação em perícia odontológica - 14ª Vara Cível do Foro Regional de Santo Amaro - Comarca da Capital

Procedimento Comum / Responsabilidade Civil 
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 03/03/2016 - 14ª Vara Cível

sábado, 2 de julho de 2016

Mutirão de Odontopediatria - Prefeitura de Taboão da Serra



Novas perícias em andamento - Justiça Estadual - Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo - TJSP

Foro Regional IV - Lapa


Procedimento Comum / Indenização por Dano Moral
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 11/04/2013 - 2ª Vara Cível

Foro Regional XV - Butantã


Procedimento Comum / Erro Médico
Perito: Andre Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 24/07/2012 - 1ª Vara Cível





sábado, 25 de junho de 2016

Perícias Judiciais em andamento

Foro Central Cível




Procedimento Comum / Responsabilidade do Fornecedor
Perito: ANDRE EDUARDO AMARAL RIBEIRO
Recebido em: 14/05/2015 - 11ª Vara Cível
Procedimento Comum / Indenização por Dano Material
Perito: ANDRE EDUARDO AMARAL RIBEIRO
Recebido em: 11/12/2014 - 11ª Vara Cível
Procedimento Comum / Erro Médico
Perito: 18 ANDRÉ EDUARDO AMARAL RIBEIRO
Recebido em: 17/07/2014 - 9ª Vara Cível

Foro de Guarulhos



Procedimento Comum / Serviços Profissionais
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 14/01/2014 - 2ª Vara Cível

Foro de Itu



Procedimento Comum / Indenização por Dano Moral
Perito: Andre Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 05/05/2015 - 1ª Vara Cível

Foro de Osasco



Procedimento Comum / Erro Médico
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 01/12/2015 - 3ª Vara Cível

Foro Regional I - Santana



Procedimento Comum / Defeito, nulidade ou anulação
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 07/08/2013 - 4ª Vara Cível

Foro Regional II - Santo Amaro



Procedimento Comum / Indenização por Dano Material
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 05/05/2015 - 6ª Vara Cível

Foro Regional X - Ipiranga



Procedimento Comum / Indenização por Dano Material
Perito: André Eduardo Amaral Ribeiro
Recebido em: 20/06/2013 - 1ª Vara Cível

sexta-feira, 17 de julho de 2015

HPV aumenta câncer de boca e de garganta em jovens


Segundo os dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), os cânceres de cavidade oral e orofaríngeo estão entre os dez tipos de maior incidência em homens brasileiros. Porém, os registros de câncer de boca e garganta eram quase que exclusivamente entre pessoas acima de 50 anos. Atualmente este dado mudou e chama a atenção dos oncologistas.
Cada vez mais jovens, tem apresentado tumores malignos. “A média etária de pessoas com câncer nessas áreas tem caído. Hoje em dia, atinge cerca de 30 a 40% de pessoas que não são tabagistas nem estilistas, e são mais jovens”, afirma o oncologista Luiz Paulo Kowalski, Diretor do Núcleo de cabeça e Pescoço do Hospital A.C. Camargo.
Contudo, mesmo que o cigarro e o álcool ainda sejam as principais causas dos cânceres, eles costumam exigir uma exposição prolongada para o desenvolvimento de um tumor – entre 15 e 30 anos de consumo. Sendo assim, outro fator de risco tem sido considerado pelos pesquisadores: o papiloma vírus, popularmente conhecido como HPC, que tem a capacidade de desenvolver um câncer em menos tempos.
“Com a queda do consumo do tabaco, esperávamos diminuir a incidência e a mortalidade do câncer, mas houve uma mudança de perfil. Está caindo o número de cânceres relacionados ao tabaco, devido às campanhas de controle, mas estão aumentando os casos relacionados ao HPV”, afirma Luiz Paulo Kowalski.
Em outra pesquisa, supervisionada por Kowalski, os médicos diagnosticaram 32% dos casos de câncer de boca em jovens adultos, que eram portadores do vírus. Em pacientes acima de 50 anos, a presença do vírus foi detectada em apenas 8%.
Já no Brasil, um estudo atual feito com a orientação da bióloga e geneticista do A.C Camargo e da Univerdade Estadual paulista (Unesp), Sílvia Regina Rogatto, aponta que em casos de câncer de amídala a incidência do HPV cresceu de 25%, registrados há 20 anos, para 80%.
“A presença em grandes capitais é mais evidente, pois os hábitos costumam ser um pouco diferente” analisa Kowalski. Mas não se deve relacionar a transmissão exclusivamente à atividade sexual. “O vírus pode ser transmitido pela saliva, com um beijo. Antigamente, não era educado beber no copo de ninguém, hoje já é uma coisa normal”, finaliza o oncologista.
Estima-se que entre 25% e 50% das mulheres e 50% dos homens estejam infectados pelo HPV em todo o mundo. Mas a maioria das infecções é transitória, sendo combatida espontaneamente pelo sistema imune. De acordo com as pesquisas feitas entre homens norte-americanos, mexicanos e brasileiros, ao menos 2% da população adulta tem o vírus HPV e não apresentam nenhum sintoma.
SINTOMAS: Existem papilomas que são como verrugas que podem aparecer na garganta ou na boca. Quem apresenta alguma ferida deve observar se ela está demorando a cicatrizar. Porém, mesmo quando um tumor maligno já se desenvolveu, pode não haver lesão visível. Em outros casos, pessoas que tiveram infecção podem não ter anticorpos elevados também. “A infecção pode ser silenciosa”, conta o médico.
Em geral, os cânceres de boca e garganta podem apresentar dor constante, nódulos, dificuldade para mastigar, rouquidão, dor na língua e mau hálito constante. “Quanto mais precoce o diagnostico, melhor, pois o tratamento não é tão agressivo as chances de recuperação são maiores. Uma lesão que durar mais de 15 dias é porque tem algo errado”, alerta o oncologista.
PREVENÇÂO: A vacinação é a melhor forma de se prevenir. ”Ela dá imunização fazendo as três doses fundamentais para que se inicie uma campanha para vacinar todo mundo, principalmente meninos e meninas antes de iniciarem a vida sexual. Nós precisamos começar a trabalhar agora para ter efeito daqui a 15 ou 20 anos”, coloca Kowalski.
Sexo seguro, alimentação balanceada, não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas e uma boa higiene oral são formas de prevenção. “um terço dos casos de câncer poderiam ser evitados se houvesse alimentação adequada e a prática de atividades físicas”, explica o nutricionista Fábio Gomes da Silva, da Unidade Técnica de Alimentação, Nutrição e Câncer do Instituto nacional do Câncer (Inca).
Fazer o auto-exame da boca com frequência também é importante. Analise a mucosa na bochecha, abaixo da língua, acima, e observe se há manchas avermelhadas e esbranquiçadas ou pequenos nódulos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Alternativa para remoção de instrumento fraturado – Descrição de caso - FFO
Alternativa para remoção de instrumento fraturado – Descrição de caso - FFO

Clínicas odontológicas na Austrália colocam pacientes em risco



Pelo menos 11 mil pacientes em Sidney, na Austrália, podem ter sido expostos ao HIV e à hepatite por causa das más condições de limpeza e esterilização durante os procedimentos odontológicos.
Os dois consultórios eram operados pela empresa Gentle Dental, em Campsie, uma no sudeste e outra no centro comercial de Sydney, sendo então supervisionado pelo Cirurgião-Dentista Robert Starkenburg nas localidades de Surry Hills e Bondi Junction.
A mídia local veiculou que Starkenburg admitiu que as práticas de higiene eram “frouxas” às vezes. O Cirurgião-Dentista Samson Chan, responsável pelos centros Gentle Dentist, teve a licença cassada em março deste ano, junto com outros quatro profissionais.
O Ministério da Saúde ressaltou que qualquer pessoa que tenha se submetido a procedimentos invasivos em qualquer uma dessas clínicas deve consultar um médico para a pratica de exames de sangue que identifiquem as tais doenças.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Açúcares artificiais

A preocupação crescente com a saúde fez surgir os adoçantes artificiaissubstâncias químicassintéticas de baixo teor calórico capazes de conferir um sabor doce a alimentos e bebidas, substituindo o açúcar comum.
Alguns destes compostos não são metabolizados pelo organismo humano, outros são metabolizados, mas logo são excretados, sem efeito cumulativo considerável, outros, ainda, são sintetizados de forma lenta, mantendo estáveis os níveis de açúcar no sangue. Devido a estas propriedades, os adoçantes artificiais são inseridos nas dietas de indivíduos diabéticos e obesos, permitindo o consumo de alimentos doces, porém menos calóricos.
Veja alguns dos adoçantes artificiais mais comuns:
  • Sacarina: substância artificial derivada do petróleo descoberta em 1879, é cerca de 200 vezes mais doce que a sacarose. É muito utilizada como adoçante principalmente na produção de refrigerantes de baixo valor calórico. Deixa um sabor amargo na boca.
  • Ciclamato de sódio: descoberto em 1937, é cerca de 30 vezes mais doce que a sacarose. É utilizado como adoçante artificial não calórico em vários tipos de alimentos e bebidas, e na composição de alguns medicamentos. Bastante estável, podendo ser submetido a elevadas temperaturas. Se ingerido em grandes quantidades pode causar diarreias.
  • Aspartame: descoberto em 1965, é cerca de 180 vezes mais doce que a sacarose e um dos mais usados nos dias atuais, principalmente na produção de bebidas. É contra-indicado aos indivíduos portadores da fenilcetonúria, visto que, um dos seus metabólitos é o aminoácido fenilalanina. Além das bebidas, o aspartame também é aplicado na fabricação de outros 6 mil produtos, aproximadamente, incluindo gomas de mascar, pós para sobremesas, recheios, iogurtes, adoçantes de mesa, e alguns fármacos como vitaminas e pastilhas.
  • Neotame: é o mais potente de todos os adoçantes artificiais, cerca de 8 mil vezes mais doce que a sacarose. Não deixa gosto residual na boca e seu sabor muito se assemelha ao do açúcar comum. A produção de bebidas diet ganha destaque quando se trata do uso do neotame.
O consumo de adoçantes artificiais é benéfico também na prevenção da cárie dentária. Sabe-se que a cárie é resultado da fermentação de carboidratos pela microbiota da placa dentária. Esses microrganismos não são capazes de fermentar os adoçantes sintéticos, evitando, assim, o surgimento da cárie.
Há uma preocupação constante quanto ao risco de efeitos secundários que possam ser causados por esses produtos, em especial, o aumento da propensão para o câncer. Por isso, diversos tipos de adoçantes artificiais já tiveram seu uso banido em alguns países, como por exemplo, a sacarina, que já foi suspensa na França e no Canadá.

Novo medicamento para hepatite C tem registro liberado


Sofosbuvir completa lista do novo tratamento para a doença aprovado pela Anvisa este ano. Medicamentos devem ser disponibilizados no SUS até o final deste ano

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu nesta segunda-feira (30/3) o registro do sofosbuvir, indicado para o tratamento da hepatite C crônica. Este é o terceiro medicamento aprovado pela agência em 2015, após o registro do daclatasvir – em janeiro –, e do simeprevir – em março. Juntos, eles compõem um novo e eficiente tratamento para a doença disponível no mundo, com um percentual de cura de cerca de 90%. A expectativa é que os medicamentos sejam disponibilizados no Sistema Único de Saúde (SUS) até o final deste ano. O Brasil será um dos primeiros países a adotar as novas tecnologias na rede pública de saúde.

Os medicamentos receberam prioridade de análise na agência por serem de interesse estratégico para as políticas de tratamento da hepatite do Ministério da Saúde. A avaliação para a concessão do registro teve duração entre cinco e oito meses. As novas opções terapêuticas proporcionam tempo reduzido de tratamento – de um ano, em média, para três meses –, redução da quantidade de comprimidos, além da vantagem de serem de uso oral. A expectativa é que o novo tratamento beneficie 60 mil pessoas nos próximos dois anos.

“Essas importantes incorporações reforçam o compromisso do Ministério da Saúde em ofertar o melhor tratamento disponível para os pacientes com hepatite C e consolidam a política de tratamento da doença que vem sendo desenvolvida pela pasta. Por isso, foi feito o pedido de prioridade de análise, tanto na Anvisa quanto na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec)”, explicou Fernão Mesquita, Diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde.

A comissão garante a proteção do cidadão com relação ao uso e eficácia do medicamento, por meio da comprovação da evidência clínica consolidada e o custo-efetividade dos produtos. O sofosbuvir foi aprovado pela Anvisa na forma farmacêutica comprimido e concentração de 400mg. A concessão do registro permite que o medicamento seja comercializado no Brasil.
Conheça a doença
A hepatite C é causada pelo vírus C (HCV). A transmissão ocorre, dentre outras formas, por meio de transfusão de sangue, compartilhamento de material para preparo e uso de drogas, objetos de higiene pessoal - como lâminas de barbear e depilar -, alicates de unha, além de outros objetos contaminados com o vírus utilizados na confecção de tatuagem e colocação de piercings. Há também transmissão vertical (de mãe para filho) e sexual.

Estimativas indicam que cerca de 3% da população mundial pode ter sido exposta ao vírus e desenvolvido infecção crônica, o que corresponde a 185 milhões de pessoas. No Brasil, calcula-se que 1,4 a 1,7 milhão de pessoas estejam infectadas pelo vírus, sendo a maior parte na faixa etária dos 45 anos ou mais. Muitos desconhecem o diagnóstico, já que a doença é silenciosa e apresenta sintomas em fases avançadas.

O Brasil é um dos únicos países em desenvolvimento no mundo que oferece prevenção, diagnóstico e tratamento universal para as hepatites virais em sistemas públicos e gratuitos de saúde. O país comandou a criação de um Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais (28 de julho) e lidera o movimento global de enfrentamento da doença.
Por Nivaldo Coelho, da Agência Saúde

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/noticias/?p=192888

domingo, 29 de março de 2015

Tuberculose: um risco para o profissional de Odontologia

Taxa de mortalidade por tuberculose cai 20,7% em 10 anos

Meta do Ministério da Saúde trabalha para reduzir em 95% os óbitos pela doença até 2035

Após atingir as metas dos Objetivos do Milênio (ODM) de combate à tuberculose com três anos de antecedência, o Ministério da Saúde assume compromisso de reduzir em 95% os óbitos e em 90% o coeficiente de incidência da doença até 2035. Nos últimos dez anos, o Brasil reduziu em 22,8% a incidência de casos novos de tuberculose e em 20,7% a taxa de mortalidade da doença. Em 2014, a incidência de tuberculose no Brasil foi de 33,5 casos por 100 mil habitantes, contra 43,4/100 mil em 2004. A taxa de mortalidade de 2013 foi de 2,3 óbitos por 100 mil habitantes, abaixo dos 2,9 óbitos por 100 mil habitantes registrados em 2003.

Os novos números foram anunciados pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro, nesta segunda-feira (23/3), em sessão solene pelo Dia Mundial de Combate à Tuberculose, celebrado em 24 de março. Além dos dados, o ministro apresentou as ações desenvolvidas pelo Ministério da Saúde que resultaram na antecipação, em três anos, das metas dos Objetivos do Milênio da Organização Mundial de Saúde (OMS) para 2015. O número de casos novos teve redução de 12,5%, passando de 77.694, em 2004, para 67.966 casos novos registrados em 2014.

“A estratégia de eliminação da tuberculose pós-2015, que o Brasil lidera junto à OMS, é a visão de que podemos viver em um mundo livre de tuberculose, com o objetivo de eliminar epidemia global da doença. Para isso, os países precisam avançar conjuntamente e estabelecer metas progressivas que possam fazer com que se chegue a essa marca tão desejada”, informou Chioro.


Descentralização
A descentralização do tratamento para a Atenção Básica pode ser apontada como uma das causas da redução nos índices da doença. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza gratuitamente o tratamento contra a tuberculose. Para atingir a cura, o paciente deve realizá-lo durante seis meses, sem interrupção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, atualmente, existam no mundo nove milhões de casos novos da doença.

O principal sintoma da tuberculose é a tosse por mais de três semanas, com ou sem catarro. Qualquer pessoa com esse sintoma deve procurar uma unidade de saúde para fazer o diagnóstico. São mais vulneráveis à doença as populações indígenas, presidiários, moradores de rua - estes devido à dificuldade de acesso aos serviços de saúde e às condições específicas de vida -; além das pessoas vivendo com o HIV.

“O sucesso da resposta do país e os desafios que ainda teremos que responder só terão êxito se tivermos a capacidade de constituir uma ampla aliança em torno de ações concretas de vários setores, não apenas os gestores e trabalhadores da saúde, mas também de atores de outras áreas da sociedade que se associam no enfrentamento da tuberculose”, avaliou o ministro.


Teste rápido
O teste rápido da tuberculose já está disponível em 94 municípios, alcançado todos os estados e o Distrito Federal. Eles estão distribuídos em cidades estratégicas para o controle da tuberculose, onde se concentram 60% dos casos novos do país, o que engloba todas as capitais e os municípios com mais de 130 casos novos de tuberculose.

Denominado “Gene Xpert”, o teste detecta a presença do bacilo causador da doença em duas horas e identifica se há resistência ao antibiótico rifampicina, usado no tratamento. Ao todo, o Ministério da Saúde distribuiu 160 máquinas, com capacidade de realizar, juntas, 640 mil testes por ano.

O investimento do Ministério da Saúde para a implantação do teste no SUS é de R$ 15 milhões. Os recursos são destinados à aquisição de testes, máquinas (computadores de última geração com leitor de código de barras) e para o treinamento dos profissionais de saúde. A técnica já foi testada nas cidades de Manaus (AM) e Rio de Janeiro (RJ), com aumento da taxa de detecção e de satisfação dos usuários e profissionais de saúde com a nova tecnologia.
Por Carlos Américo e Camila Bogaz, da Agência Saúde

domingo, 22 de março de 2015

Câncer de boca

O câncer pode aparecer em qualquer parte do corpo, mas há certos tipos de tumores que têm predileção pela boca, garganta e pescoço e estão relacionados, geralmente, a agentes causais como o álcool e o tabaco. Por se desenvolverem em áreas mais fáceis de visualizar, esses tumores são passíveis de diagnóstico precoce e, com pequenas intervenções cirúrgicas, é possível resolver definitivamente o problema.
Infelizmente no nosso meio, o diagnóstico das lesões costuma ser tardio, numa fase em que já surgiram, no pescoço, linfonodos (gânglios) comprometidos pela doença, o que obriga submeter o paciente a cirurgias muito mais extensas e, às vezes, bastante mutiladoras. O mais triste é que essa situação poderia ser evitada. Um exame simples, utilizando um abaixador de língua, um espelhinho e uma lanterna, realizado por profissional devidamente treinado, bastaria para diagnosticar precocemente a doença e evitar muito sofrimento.
AGENTES CAUSAIS
Drauzio – O que provoca as lesões que levam ao câncer de boca?
 Orlando Parise Jr. – O câncer de boca está muito associado ao cigarro. Não se pode esquecer, porém, que há outros fatores de risco envolvidos como o alcoolismo (especialmente quando associado ao tabagismo) e a má higiene oral.
Drauzio – De que maneira o cigarro provoca as lesões de boca?
 Orlando Parise Jr.– O cigarro é extremamente tóxico. Possui 5.000 substâncias que são danosas à saúde e que agem de maneira diferente. A principal, e a mais clássica, é o benzopireno. Experimentalmente, já foi provado que basta pincelar benzopireno na boca de cobaias para que os animais desenvolvam tumores. Além disso, não se pode esquecer da ação térmica do cigarro. Como a fumaça chega muito quente na boca do fumante, provoca uma irritação crônica que obriga a mucosa a reproduzir-se de modo mais acelerado, o que leva à multiplicação de células e ao câncer.
Drauzio –Você disse que a fumaça do cigarro é aspirada numa temperatura muito alta, embora as pessoas digam não sentir a boca queimar quando fumam. Essa alta temperatura que outros danos pode provocar na boca do fumante?
Orlando Parise Jr. – Na verdade, a fumaça do cigarro é um fator de risco para o desenvolvimento de câncer não só de boca e de garganta, mas de muitos outros órgãos, entre eles, o esôfago e o pulmão. Quando a pessoa dá uma tragada, a alta temperatura da fumaça provoca a mistura de substâncias químicas. Isso gera compostos, que não estavam originalmente no cigarro, mas são responsáveis por danos ao organismo. É o fenômeno chamado pirossíntese.
Drauzio – Aproximadamente, qual é a temperatura da fumaça do cigarro ao entrar na boca?
Orlando Parise Jr. – É de setenta e poucos graus. Isso varia um pouco de acordo com o tipo de cigarro, mas a temperatura é sempre suficientemente alta para provocar danos, em especial, se o processo agressivo for repetido com frequência.
Drauzio – Se colocarmos água a 70º na boca, a dor será intensa. Como o fumante não sente a boca queimar?
Orlando Parise Jr. – Não sente, porque a fumaça não é líquida, mas uma emulsão de partículas dissolvidas nos gases. Além disso, com o tempo, o fumante perde muita coisa, inclusive a sensibilidade da boca e da laringe. Tanto isso é verdade que, às vezes, as pessoas engordam quando param de fumar, porque redescobrem o sabor dos alimentos.
CARACTERÍSTICAS DAS LESÕES
Drauzio – Onde surgem, preferencialmente, os tumores dOrlando Parise Jr. – Geralmente, o sítio de eleição é a borda lateral da língua, mas as lesões podem aparecer em qualquer ponto da mucosa. Na boca, elas são mais visíveis e, por isso, o diagnóstico precoce é mais frequente. A própria pessoa nota alguma coisa estranha ou o dentista observa a lesão num exame odontológico de rotina e encaminha o paciente para um especialista a fim de fazer uma biópsia. O problema é maior nas regiões posteriores das vias aéreas, ou seja, nos seios piriformes e na laringe. Às vezes, quando surgem os sintomas, a lesão já está muito grande.
Drauzio – Na fase inicial, qual é a aparência das lesões de boca?
Orlando Parise Jr. – Elas podem surgir sob a forma de pequenas feridas brancas ou vermelhas ou de úlceras que são confundidas com aftas. É preciso dizer, porém, que parte dessas alterações não chega a virar câncer. Em cada cinco ou seis, uma se transforma num tumor maligno. Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante.
Nos Estados Unidos, por exemplo, 90% das lesões são diagnosticadas na fase inicial, quando o tumor tem, no máximo, 2cm em seu eixo maior. No Brasil, a proporção é inversa: 85% dos tumores estão em estágio avançado no momento do diagnóstico. Sem falar no sofrimento dos pacientes, que deixam de beneficiar-se com um tratamento simples, uma pequena cirurgia de rápida recuperação, o diagnóstico tardio reverte num custo muito grande porque o requer, além de cirurgia mais invasiva, aplicações de rádio e quimioterapia.
Drauzio – Na imagem 1 ,aparece uma leucoplasia localizada no bordo lateral da língua. Quais as principais características dessa lesão?
Orlando Parise Jr. – É uma lesão esbranquiçada que sobressai ao plano da língua. Trata-se de uma lesão vegetante, pré-maligna, de tratamento bastante simples. Dependendo do paciente, é possível fazer a ressecção com anestesia local e não há sequelas funcionais nem para a deglutição nem para a fala.
Drauzio – E a lesão que aparece na imagem 2?
Orlando Parise Jr. – Situada no terço médio da borda lateral da língua, é uma pequena úlcera rasa, mas com extremidade um pouquinho mais elevada. Uma pessoa desavisada, às vezes, pode conviver muito tempo com uma lesão dessas na boca, vê-la crescer e só procurar auxílio médico quando ela está numa fase avançada e requer mutilação.
Drauzio – Nessa fase, a lesão dói como aconteceria se fosse uma afta?
Orlando Parise Jr. – O comportamento é muito variável. Às vezes dói; outras, não apresenta nenhum sintoma. Normalmente, a dor começa a ocorrer nos estadios mais avançados ou quando aparece uma infecção secundária provocada por alguma das inúmeras bactérias existentes na boca.
Drauzio – Essa lesão tumoral é muito semelhante a uma afta. Como o observador desavisado pode diferenciá-la da afta vulgar, muito comum na população?
Orlando Parise Jr. – Geralmente, as lesões iniciais do câncer têm a borda mais endurecida do que as aftas. Outro fator a considerar é o tempo. A afta costuma ser um processo autolimitado. Depois de uma ou duas semanas, deve cicatrizar. No caso de um câncer inicial de boca, a lesão só tende a crescer e, se não involuir com medidas terapêuticas convencionais, como a aplicação de um colutório, a pessoa deve procurar um médico para fazer biópsia.
SINAL DE ALERTA
Drauzio – Como alertar a população sobre as características das lesões que precisam da avaliação de um médico?
Orlando Parise Jr.– O problema é que as lesões malignas de boca não têm um formato típico. Por isso, devemos ficar atentos a qualquer alteração na mucosa da boca e acompanhar sua evolução. Se não voltar ao normal em poucos dias, uma ou duas semanas no máximo, devemos procurar um profissional para diagnóstico. Pode ser uma infecção, um problema venéreo, uma lesão pré-maligna ou um câncer já instalado.
Devem tomar cuidado maior os tabagistas, especialmente aqueles que tomam bebidas alcoólicas e fumam, e pessoas com problemas de voz e que apresentem dificuldade para engolir, especialmente se essas alterações forem ficando mais intensas.
Drauzio – Quando você diz tabagista, certamente, está se referindo aos que fumam cigarros, cachimbos e charutos.
Orlando Parise Jr. – Aparentemente, o charuto é um pouco menos agressivo do que o cigarro, mas o cachimbo é um fator de risco importante para o câncer de boca.
Drauzio – Há um tipo de lesão de lábio que é característica dos fumantes de cachimbo. É lógico que o ideal seria que ninguém fumasse, nem cachimbo, nem cigarro, nem charuto. Sob qualquer forma, o fumo é pernicioso, mas quem fuma cachimbo não deve apoiá-lo sempre no mesmo local da boca para evitar agressões repetidas. Há outros fatores de risco para o câncer de lábio?
Orlando Parise Jr. – É muito comum os cânceres de lábio estarem associados à exposição ao sol. Atualmente, todos sabem que o sol pode ser prejudicial. Há alguns anos, porém, essa informação não existia e muita gente está desenvolvendo câncer de lábio, geralmente no lábio inferior, porque tomou sol em excesso.
CIRURGIAS
Drauzio – Você disse que as lesões pré-malignas podem ser resolvidas com uma cirurgia muito simples que não provoca deformações nem danos funcionais. Por isso, a lesão maligna descoberta na fase inicial é passível de ressecção cirúrgica bastante econômica.
Orlando Parise Jr. – Mesmo na fase inicial, a lesão maligna exige ressecção um pouco mais extensa, a fim de resguardar a margem de segurança necessária. Normalmente, retira-se a lesão e resseca-se em torno de 1cm de tecido normal. Já a profundidade costuma ser limitada, porque os tumores estão numa região superficial da mucosa.
No entanto, quando há infiltração muscular, o que caracteriza o avanço da doença, dependendo da região da língua em que se localiza o tumor, a intervenção cirúrgica pode provocar comprometimento tanto da deglutição quanto da fonação.
EVOLUÇÃO E DIAGNÓSTICO
Drauzio – Como evoluem essas lesões, desde a pré-maligna até a francamente maligna que se dissemina pelo organismo?
Orlando Parise Jr.– Às vezes, passam-se vinte anos entre o início das alterações pré-malignas até o câncer tornar-se invasivo. Em termos de saúde pública, é um tempo enorme que permitiria fazer todo tipo de rastreamento populacional e tratar as pessoas que estão em risco. Infelizmente, isso não ocorre no Brasil, embora o diagnóstico seja barato e não exija exames sofisticados como a ressonância magnética, por exemplo, pois bastam um espelhinho e o treinamento do profissional que faz a avaliação.
Drauzio – Muitos desses diagnósticos são feitos pelo dentista, que descobre uma lesão que nem mesmo o paciente tinha percebido. Você acha que, de maneira geral, os dentistas estão preparados para fazer o diagnóstico precoce?
Orlando Parise Jr. – Atualmente estão muito mais preparados do que há quinze, vinte anos. O próprio Ministério da Saúde desenvolve programas visando à saúde bucal. Embora a situação tenha melhorado muito, de vez em quando, aparecem pacientes que fizeram tratamento dentário durante meses sem que o dentista tivesse notado a lesão que crescia.
Drauzio – O álcool potencializa a ação da nicotina. Com que frequência devem fazer exames preventivos da boca e da garganta as pessoas que bebem e fumam ou aquelas que fumam, mas não bebem?
Orlando Parise Jr. – Não sei responder essa pergunta. Só sei que o pico da incidência desses tumores ligados ao cigarro ocorre na quinta ou sexta década de vida. Por isso, depois dos cinquenta, sessenta anos, o fumante deve procurar um médico ou o dentista para avaliação da boca e da garganta e fazer raios X de tórax. Além disso, independentemente da idade, qualquer alteração no timbre de voz ou dificuldade de deglutição deve chamar a atenção e ser avaliada.
Do mesmo modo, pessoas que convivem com tabagistas não estão livres do problema. Nós cansamos de receber pacientes com carcinoma ligado ao cigarro que,  embora nunca tenham fumado, conviveram com fumantes por muito tempo.
Drauzio – Como você avalia clinicamente um fumante com 55 anos, que bebe de vez em quando, no que diz respeito à boca e à garganta?
Orlando Parise Jr. – Basicamente, o exame consiste em examinar a boca para verificar se existem lesões suspeitas, palpar o pescoço para sentir se há gânglios comprometidos e fazer uma nasofibroscopia (exame para olhar a parte de trás da garganta e os seios piriformes através de uma fibra ótica fininha que é introduzida pelo nariz). O mais importante, porém, é a pessoa estar atenta aos sintomas e procurar um profissional capaz de interpretá-los.
Drauzio – Às vezes, os tumores provocam dor ao deglutir. Dor de garganta, porém, é um sintoma frequente em pessoas com quadros alérgicos e a garganta irritada também torna difícil engolir. Qual a diferença entre dificuldade de deglutição provocada por doença invasiva e a provocada por doenças banais?
Orlando Parise Jr. – A dificuldade de deglutição não é um sintoma muito valorizado nos diagnósticos de câncer da boca e garganta. Certas condições clínicas, crônicas, provocam dificuldade de deglutir. Por exemplo, paciente com refluxo gastroesofágico tem dificuldade para engolir, porque o conteúdo ácido do estômago extravasa e irrita o esôfago e a laringe. No entanto, se houver alterações da voz (disfonia), que persistem durante duas ou três semanas, é preciso procurar atendimento de um especialista.
TUMORES NAS CORDAS VOCAIS
Drauzio – Quais as características dos tumores nas cordas vocais?
Orlando Parise Jr. – Quando o câncer se instala nas cordas vocais, os sintomas aparecem logo, porque o tumor impede a aproximação adequada de uma corda na outra e a produção dos sons fica alterada. Isso permite fazer precocemente o diagnóstico.
Outra característica favorável desse tipo de tumor é que raramente ocorrem metástases, ou seja, é baixa a possibilidade de a doença invadir os gânglios do pescoço.
Diagnóstico precoce e tumor não invasivo indicam bom prognóstico, não só para os tumores das cordas vocais, mas para o câncer de cabeça e pescoço, em geral.
TRATAMENTO
Drauzio – O ideal é fazer o diagnóstico precoce e retirar o tumor cirurgicamente respeitando uma margem de segurança de pelo menos 1cm além do limite da lesão. Quando o tumor já atingiu os linfonodos (gânglios) do pescoço, o que se pode fazer?
Orlando Parise Jr. – O tratamento do câncer de cabeça e pescoço mudou um pouco nos últimos anos. Até dez ou quinze anos atrás, a base do tratamento era a cirurgia e a radioterapia. Depois, surgiram alguns protocolos chamados de preservação do órgão, segundo os quais se procurava evitar a mutilação cirúrgica, ou melhor, procurava-se preservar praticamente tudo, embora os resultados fossem discutíveis. Por exemplo, do ponto de vista anatômico, o paciente permanecia com a laringe que, às vezes, deixava de funcionar depois do tratamento, e o que aparentemente era uma vantagem, transformava-se num problema sério porque, além de engasgar quando ia engolir, ele apresentava outros problemas ligados a um órgão que perdeu a funcionalidade.
A filosofia, hoje, é tentar ser conservador quando se trata de um tumor primário para evitar a mutilação funcional, mas a agressividade do tratamento deve ser maior se os gânglios do pescoço estiverem comprometidos.
Drauzio – E nos casos em que a cirurgia não é mais indicada porque o tumor é grande demais ou está localizado numa região que, ao ser removido, provocaria deformidades anatômicas graves?
Orlando Parise Jr. – Associar a quimioterapia com a radioterapia é uma solução para esses casos, pois torna possível certo controle da doença. Muitas vezes, o objetivo do tratamento não é mais a cura, mas manter a doença num grau de estabilidade para que o paciente tenha bom convívio social e não sinta dor.
Na verdade, são múltiplos os aspectos a considerar. Já que não se pode mais almejar a cura, é preciso que o tratamento proporcione conforto para que a pessoa consiga integrar-se à sociedade, consiga trabalhar e, em último caso, para que não se sinta abandonada nessa fase da doença.
PREVENÇÃO
Drauzio – Quais são as medidas preventivas para evitar o câncer de boca e garganta?
Orlando Parise Jr. – Primeira medida: desenvolver hábitos saudáveis. Quem fuma deve procurar ajuda para deixar de fumar. É ponto pacífico que o cigarro está ligado a uma série de problemas de saúde além do câncer.
Outro ponto importante: é preciso cuidar da saúde da boca. Gengivites crônicas ou  problemas dentários de qualquer espécie requerem cuidados especiais. Reabilitar a boca do ponto de vista funcional para garantir mastigação adequada, acabar com os focos de infecção e fazer boa higiene oral são medidas muito importantes.
Terceiro ponto: periodicamente, o médico ou o dentista devem ser consultados para avaliação. Qualquer alteração de voz requer a análise de um otorrino, de um especialista em cabeça e pescoço, ou de um clínico geral e a indicação de uma laringoscopia.
Em termos de política pública, é fundamental que as faculdades de medicina, de odontologia e o Ministério da Saúde desenvolvam rastreamentos populacionais dirigidos aos grupos de risco para examinar a boca dessas pessoas. Isso é muito barato de fazer. Bastam um espelhinho, um abaixador de língua e uma lanterna. No Brasil, já houve campanhas de rastreamento com resultados animadores. Uma delas, em Vitória (ES), conseguiu baixar significativamente a incidência de câncer de boca com o diagnóstico precoce. São campanhas simples e baratas com grande impacto na economia porque evitam os gastos com radioterapia e quimioterapia exigidos pelas lesões em estádio avançado.
Drauzio – Sem falar no sofrimento dos pacientes e dos familiares…
PERGUNTAS ENVIADAS POR E-MAIL
Vera Lucia Povoas – Blumenau (SC) –  Qual a relação entre câncer de boca e próteses mal-feitas?
Orlando Parise Jr. – Antigamente se dizia que próteses mal ajustadas eram um dos agentes causadores de câncer, porque provocavam um traumatismo crônico. Alguns estudos colocaram essa opinião por terra. Eu diria que o assunto é polêmico. É óbvio que ninguém deve manter uma prótese mal ajustada na boca, mas dizer que elas provocam câncer ainda é um tema em discussão.
Karina Belchior – Divinópolis (MG) – Dente mal arrancado pode provocar câncer de boca?
Orlando Parise Jr. – Não, não pode.
Aída Leme – Rio de Janeiro (RJ) – Batom é fator de risco para o câncer?
Orlando Parise Jr. – Usar batom não representa risco para câncer. Fosse assim, estaríamos perdidos.
Patrícia Sombrino – Porto Alegre (RS) – Existe alguma substância que, ao ser ingerida, deixa o indivíduo mais suscetível à doença?
Orlando Parise Jr. – Sabe-se que hábitos alimentares inadequados (pouca ingestão de fibras, por exemplo) podem favorecer a instalação do câncer de colo do intestino, mas não há nenhum indício de que a alimentação normal do dia a dia favoreça o desenvolvimento de câncer de cabeça e pescoço.
Drauzio – Se a lesão já estiver instalada, há algum tipo de alimento que a faça progredir mais rápido?
Orlando Parise Jr. – Existem estudos que dizem o contrário, ou seja, que a pessoa pode minimizar o risco de câncer, comendo muita fruta e outros vegetais, principalmente os que contêm caroteno, como a cenoura, por exemplo, mas nada foi provado de forma definitiva.
Maria Aparecida Desiderio – São Paulo (SP) O auto-exame ajuda a antecipar o diagnóstico da doença?
Orlando Parise Jr. – Sem dúvida. É muito importante que, ao fazer a higiene oral, a pessoa abra a boca, coloque a língua em todas as posições de modo que possa olhar o interior da própria cavidade oral. Além disso, se notar um caroço, qualquer que seja ele, no pescoço, deve procurar auxílio médico rapidamente.

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